Domingo, 20 de Julho de 2008
22/02/2008 - Críticas

BERNARDO BRUM
Colunista do Cineskópio


Juno adora os filmes do mestre do terror Dario Argento, não se impressiona com Sonic Youth por ter ouvido Iggy And The Stooges em excesso, acha que a melhor geração do rock and roll foi em 1977, já teve banda, é filha de pais separados, há alguns meses transou com seu melhor amigo Paulie Bleeker...  E está grávida.

Essa é a premissa de um dos filmes mais originais de 2007. Comédia adolescente com toques de drama, faz parte da mesma moderna geração que ri da realidade por mais cruel que a mesma seja, como “Os Excêntricos Tenenbaums” e “Pequena Miss Sunshine”. E o tema escolhido – gravidez na juventude – assim como nos demais filmes, não fica polemizando as questões que aborda, sempre as tratando de forma muito espirituosa e humana. Você não encontrará aqui um drama de como ficar grávida aos dezesseis é traumatizante, nem um guia didático de o que fazer nessa situação.

Como personagem homônima ao título, temos a graciosa Ellen Page, protagonista do drama “Meninamá.com” e a Lince Negra de “X Men: O Confronto Final”. Encarna com doçura e humor necessários todo o instável mundo de uma jovem que repentinamente é virado de cabeça pra baixo – não bastando ter que lidar com problemas como sexualidade, drogas, futuro profissional, ela ainda tem de decidir se vai ser mãe solteira, se vai abortar, se vai entregar o filho para adoção... Sentiu a pauleira bem maior que qualquer filme de terror?

Em apenas uma hora e meia, o filme consegue desenvolver de forma satisfatória a maioria de seus personagens em sua hora e meia de duração, e mesmo sendo recheado de piadinhas sobre a cultura pop, o cotidiano adolescente e toda a confusão que uma situação dessas geraria no meio social de uma adolescente da classe média americana estadounidense, o filme nunca se perde em humor barato ou desnecessário. Todos os momentos engraçados estão inseridos no contexto da história, desde o hilário mau humor do seu pai Mac até o vício de Bleeker (Michael Cera, de “Superbad”) em Tic-Tac sabor laranja, passando pelos desentendimentos do casal que quer adotar Mark e Vanessa Lorring.

Talvez o único defeito do roteiro é centrar demais a ação na protagonista, dando um ar meio alienado para Bleeker, que até a segunda metade do filme parece um completo boçal e sua amiga Leah, que apesar de simpática, tem uma presença meio apagada, e aparenta só aparecer para que Juno não pareça uma biruta falando sozinha. Sendo os únicos personagens centrais com idade similar a de Juno, seu carisma merecia ser um pouco mais trabalhado.

Impossível não reparar na trilha sonora, recheada do melhor rock and roll, indo de classicões do Velvet Underground, Mott The Hoople, The Kinks e Buddy Holly até pérolas do rock alternativo de Cat Power e Belle And Sebastian. Pop e acessível do jeito que o filme se propõe a ser, as músicas caíram feito uma luva e serviram para deixar o mundo mais de Juno ainda mais carismático.

Não, Juno não entra em depressão. Sim, seu mundo fica de pernas pro ar, mas não desaba. É maravilhosa a noção do filme que uma gravidez é apenas uma gravidez, e não uma mutação genética. Tem lá seus dramas, mas também tem lá sua graça. Nem de longe o melhor filme do ano, talvez por não ter a mesma magnificência, mas no que falta de majestoso, o filme compensa com muito humor e simpatia. Impossível não se sentir mais leve depois de assistir. Uma das mais gratas surpresas em cartaz.


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